De Maresias pra Revista Hardcore

Talvez as melhores coisas que acontecem em nossas vidas, são aquelas que não planejamos, ou nem criamos nenhum tipo de expectativa para que tal acontecimento realmente se concretize, simplesmente o fato acontece.


Claro que não estou dizendo que devemos ficar parados, que as coisas irão acontecer, muito pelo contrário, seus sonhos vão se tornar realidade a partir do momento em que você começar a trabalhar para que eles aconteçam, ai entra o que escrevi no primeiro parágrafo: as coisas começam à surgir e a se concretizar, mas sem cobrança.


Quando comecei a me entender como fotógrafo, um dos meus grandes sonhos era ter minhas imagens publicadas em revistas de surf. E naquela ansiedade, entrei em contato com as principais revistas de surf do Brasil (Fluir, Surfar, Alma Surf e Hardcore), mas nunca tive a oportunidade de emplacar uma foto.


Em 2014/2016 tive a oportunidade de ter minhas imagens e da minha noiva Taiza Rossi publicadas na extinta Revista Fluir (out/2014 & jan/2016), para o Ibrasurf (Circuito Universitário de Surf), mas naquela época trabalhávamos juntos e carregávamos o nome de H20 Photography, assim nossas fotos na Fluir foram assinadas.


Fluir: Janeiro/2016 & Outubro/2014

E aquela vontade de ter uma foto minha, publicada em meu nome, sempre martelava os meus pensamentos, ao mesmo tempo que produzia boas imagens e entrava em contato com as revistas, poucas retornavam com algum tipo de resposta ou simplesmente nem retornavam os meus e-mails. Isso é extremamente frustrante, uma falta de respeito e consideração com qualquer tipo de profissional.


Simplesmente parei de mandar e foquei meu trabalho nas barcas. Acredito até hoje que as revistas são um jogo de interesse. Você consegue publicar uma foto quanto tem uma relação próxima com o editor ou com a equipe de edição ou quando a marca patrocina a revista, pode ser a foto que for, que ela vai ser publicada. Para mim isso é um jogo sujo e tira a oportunidade de grandes fotógrafos que estão produzindo conteúdo de qualidade.


Mas, "sou brasileiro e não desisto nunca". Fiz uma foto do surfista Paulo Cesar "Caveira", local de Maresias, em uma onda linda, com o sol de fundo e as cores de um final de tarde clássico. Quando fiz essa foto, eu sabia que ela poderia ser uma página de uma revista. E tratei de mandar ela para todas as revistas que estavam em circulação na época (Fluir, Hardcore e Surfar). A única que me retornou foi a Fluir, me dizendo que a foto estava ótima para ser publicada, mas que eles não tinham mais a "Sessão de Fotos" e que não teriam onde colocar minha imagem. Alguns meses depois a Fluir declarou falência e a Surfar virou uma revista digital.


Caveira em um final de tarde clássico em Maresias.

A partir desse momento nunca mais mandei nada para nenhuma revista do Brasil. Em 2017 fui para a Indonésia, e tive um grande mentor que me ajudou ao longo dos três meses que fiquei por lá. Me passou algumas dicas de como entrar em Uluwatu, como fazer as vendas das imagens, o cuidado com a imigração e inclusive me passou o contato do editor chefe da principal revista de surf da Indonésia - a SurfTime.


Sem pretenção alguma, mas tendo a indicação do meu mentor, todo swell separava algumas das melhores fotos dos locais e mandava para o editor da revista. Foi quando recebi um e-mail, dizendo que ele tinha utilizado uma de minhas fotos e iria sair na edição de Agosto de 2017. Tinha chego o grande dia!


Reconhecimento internacional, fruto de um trabalho que estava fazendo ao longo desses anos e ganhei minha primeira página dupla. O editor, poderia não ter utilizado nenhuma de minhas imagens, mas existiu uma relação de respeito, de troca, isso faz toda a diferença, um gesto simples de responder aos meus e-mails me motivou a mandar sempre minhas boas imagens.


Se passaram 12 meses e estamos novamente nessa situação. Uma página dupla da única revista de surf que sobrou no Brasil. Digamos que 50% do crédito desse feito seja meu (claro, eu que fiz a foto), mas eu não teria enviado ela para a Hardcore, se não fosse o surfista da foto Luiz Aloizio "Luizinho". Ele sem dúvida é o grande responsável por isso, entrou em contato com eles, mandou as imagens e praticamente no mesmo dia já sabíamos que ela iria sair no mês de Agosto/18.


De Maresias para Hardcore

Talvez tenhamos que passar por provaçōes, dificuldades e até mesmo chegar a pensar se estamos no caminho certo, para perceber que estamos trilhando o caminho da verdade, do amor, da satisfação pessoal e ver que existe o reconhecimento.


Ele tanto existe, que no dia em que fiz essa imagem, estava fazendo a sessão de fotos de um cliente. No dia 04 de Junho, logo pela manhã recebo um pedido de um surfista querendo uma diária de fotos em Maresias, combinamos de nós encontrar em São Paulo e tocamos para o litoral norte - Maresias.


No dia seguinte (05 de Junho), a previsão tinha se confirmado, um swell forte de sul com vento variando de norte para leste. Com ondas de 1.5m e com séries de 2m, transfomaram o inside em um grande campo minado, difícil de se passar, mas a glória estava reservada para os fortes.


Como era minha primeira vez fotografando esse meu cliente, fiz a opção por entrar na água com uma 50mm para dar mais liberdade a ele e conseguir um número maior de imagens. Assim que consegui passar a zona de arrebentação, fiz a opção de ficar um pouco mais pra cima, por conta das séries maiores que poderiam comprometer minha permanência no mar.


Depois de mais de 1h fotografando meu cliente e alguns outros surfistas, um grande triângulo começou a se formar no horizonte, vi a pressa na remada de alguns surfistas. Eu tinha certeza de que uma boa onda iria se formar, só não tinha certeza se alguém iria ter a coragem de enfrenta-la. Sem saber quem estava no pico, vi apenas ele remando, subindo na prancha e colocando pra dentro em um dos tubos mais irados que já pude presenciar dentro d'água em Maresias. Se liga nessa sequência!


Acredito que o reconhecimento aparece de diversas formas e devemos dar valor a todas elas. Do seguidor no Instagram que não sabe surfar, mas acompanha e consome o meu trabalho, ao surfista que faz questão de me incluir na barca, até a revista que publica minha foto. Tudo está relacionando a quanto você realmente acredita no que faz e o quanto está disposto a seguir em frente. Sem expectativas, mas com a certeza que está no caminho certo.


#Aloha & #BoasOndas


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